Começo esse texto com um titulo de duplo sentido. Não me
leve a mal, o único sentido que eu não quero usar o titulo é no sentido que acho
que as pessoas vão entender. Esse não é um texto que tenta passar uma linha
entre mulheres “de verdade” e mulheres que de alguma forma não se enquadram na
categoria. Não. Toda a mulher é mulher de verdade. E essa é parte da
problemática.
Importante ressaltar também que escrevo esse texto pensando
no publico masculino. Escrevo para trazer minhas experiencias e dificuldades
para, quem sabe, dialogar com quem se sinta da mesma forma. Para falar um pouco
como um homem criado na nossa sociedade sobre as dificuldades de sair da zona
de conforto e privilegio que nascemos e somos criados em direção a um lugar de
igualdade. Igualdade de maturidade e conhecimento de si. Coisa que não só eu
mas todos os homens que encontrei passam dificuldades quando tentam alcançar.
Sou não monogâmico e bissexual, mas não vou abordar essa
segunda parte aqui (Será um texto super heteronormativo para poder abordar o
problema). O mais importante é que sou HOMEM não monogâmico. Aqui já existe um
ponto. Como homem é muito fácil para mim encontrar alguém com interesse em mim.
Na verdade é muito fácil encontrar mulheres SENSACIONAIS que tem interesse em
mim. Porque sou fodão, gostoso pra caralho? Não, longe disso. Simplesmente
porque sou homem e com isso já vem um valor dado por essa sociedade machista. A
quantidade de mulher foda que se diminui para conseguir um homem médio (como eu)
a minha volta me assusta. E digo isso não para culpar de alguma forma essas
mulheres. Pelo contrario, digo para ilustrar essa imagem que se forma em cada
uma das relações a minha volta, inclusive as minhas.
Para fins de semântica vou definir um pouco mulheres fodas e
homens médios (pela minha visão) e vou deixar vocês buscarem os exemplos na
vida de vocês.
Mulheres fodas: elas entendem de si, lutam dia a dia contra uma estrutura que
desempodera elas e ao mesmo tempo a culpa de tudo o que elas não são (ou não
querem ser). Elas constroem uma alto estima com muito suor em um ambiente que
exige delas uma perfeição desumana. Cansam a garganta tentando ter um espaço de
fala que lhes é roubado. Aprendem toda a sorte de artimanhas para se impor numa
sociedade que coloca elas como coadjuvantes. E no meio dessa opressão batalham
para alcançar o que é possível satisfação emocional e sexual. Tudo para ter um
pouco de felicidade subjetiva em um ambiente 100% hostil a isso. Tidas como
loucas, tristes, más, egoístas, quando na verdade só querem ter espaço para ser....bom.. elas.
(resumo: todas as mulheres que conheço)
Homens Médios: Tem mente aberta para entender os privilégios
que o sustentam. Ouvem com paciência suas companheiras e se preocupam com a
felicidade das mesmas. Quando deparados com posturas machistas ou criticas sobre
seu comportamento tendem a ouvir e pedir desculpas. Se preocupam com sua
aparência e com como despertar o desejo de outros por eles. Cuidam de alguma
forma das suas relações. E tem interesse em ter uma relação saudável com o minimo
de igualdade e felicidade para os envolvidos, acima do status cuo da relação em
si. Mesmo assim ainda tendem a ser inseguros e egoicos e a precisar de resposta
positiva para cada ação minimamente decente e madura, simplesmente porque
faze-las é abrir mão do privilegio que vem tão fácil.
(resumo: alguns homens, bem raros. Mesmo assim são “médios” porque vamos combinar que não é pedido deles nada
além de ser uma pessoa boa)
Essa definição é o ponto principal do problema. Ao me
relacionar com essas mulheres fica claro o nível de desigualdade que existe.
Não com relação a opressão das mulheres. Isso é claro o tempo todo e não
precisa de um esquerdomacho para sublinhar. Mas sim a diferença palpável de
maturidade entre um componente e outro da relação.
Enquanto nós temos dificuldade de lidar com o minimo negação
e rejeição, enquanto nós precisamos de um processo de desconstrução para
simplesmente entender nossas falhas. Cá estão elas comendo o pão que o diabo
amassou, sorrindo e perdendo o tempo delas para ensinar o que nós já deveríamos
saber. Tudo isso pura e tão somente porque querem ser felizes com a gente.
Vamos combinar que se existisse uma parcela da população masculina que fosse
tão entendida de si e dos outros, quanto elas são, elas NÃO ESTARIAM COM A
GENTE. E eu não as culpo.
E meio que é ai que me pego hoje.
Meu valor não é meu.
Mas como um homem médio eu me preocupo com isso. Quero ser um parceiro de
verdade para quem está comigo. Quero ser capaz de ter uma conversa e entender
minha parceira e talvez ter uma posição que ajude ela (e não só uma reação
minha ao problema dela e como EU acho que ela deveria resolver). Quero poder
transar com uma mulher e descobrir nossos prazeres juntos, sem a imposição de
ego ou inseguranças. Quero poder ter meus pés no chão, como elas tem, a ponto
de não só ser peso na minha relação mas ser apoio também. Claro que não sou tão
ruim assim, sou médio. Ajudo onde consigo, sou o que consigo e tenho meu
pequeno valor (tirando todo aquele valor que me é dado). Mas me vejo a todo o
momento precisando aprender a ser melhor para que minha parceira possa ser mais
ela sem medo deu “não dar conta”.
Não é fácil namorar uma mulher, de verdade.
Não é fácil namorar de verdade uma mulher.
Quero ter uma relação saudável de igual para igual com quem
quer se seja. E depois de muitas discussões com varias mulheres que se
disponibilizaram e me ensinar o lógico ainda me sinto galgando um caminho árduo
sozinho. Não existem livros sobre homens fodas nesse sentido. Porque o sentido
de homem foda está tomado por uma outra imagem. Uma imagem que não me
contempla, que não deveria contemplar ninguém. Com valores de força ao invés de
flexibilidade, de logica ao invés de sentimento e assim por diante. Enquanto mulheres
tem series sobre sororidade e a dificuldade de lidar no cotidiano com tudo o
que elas passam (que nós qualificamos como séries bobas por incapacidade de entender a profundidade dessas coisas), nós aplaudimos imagens egoicas de homens emocionalmente alajados mas HIPER capazes e egoicos: como Homem de Ferro, House, Sherlock Homes, e a lista segue. No final me sinto sem
outros homens para falar sobre isso. Para entender o que podemos fazer melhor e
ajudar outros de nós a seguir esse caminho.
Por isso quis escrever esse texto. Não para ensinar nada mas
para levantar uma bola esperando que outros homens leiam, se identifiquem e
conversem. Para tentarmos todos sermos bons homens médios até que, quem sabe um
dia, algum de nós consiga ser um homem bom.