quinta-feira, 28 de março de 2019

Ferimento força a ferida a virar fibra firme.

Farei da dor força. Da porrada aprendizado e maturidade. Mas no lugar da ferida não criarei casca. Não, criarei densidade. Fibra somente. Ainda atravessável pelo que vem mas um pouco menos vulnerável. Já sinto isso na verdade. Por mais que ainda veja exposta a ferida que você me causou. Sinto que ela esta cicatrizando de dentro para fora. Por fora ainda sangra, mas por dentro uma carne nova nasce, mais consistente, mais madura. Quando isso passar serei outro. Não diferente a ponto de ser irreconhecível, mas adulto. Versão melhorada de momento anterior. Mais calmo, já sinto, mais forte, imagino. Me sinto hoje levantando a cabeça do baque que tomei e vendo outro mundo a minha frente. Engraçado depois de tantas ter sido justamente essa ultima que trouxe essa realização. Talvez não tenha sido. Talvez seja sim conjunto de todas as que tomei. A melhor metáfora não é o copo que transborda e sim a balança que depois de determinado peso posto até uma pena pode causar a sair de estado de equilíbrio e dar ignição ao movimento. Movimento esse que para no próximo estado de equilíbrio. Talvez tenha sido isso. Talvez essa ultima tenha sido só o ultimo peso para dar ignição a mudanças já começadas dentro de mim. 
Bom, não farei do meu peito casca. Não farei do meu amago magoa. Farei aprendizado, fibra e calma. Me tornarei uma pessoa melhor mas igualmente aberta ao mundo. Já não estamos mais na idade de nos desiludir com ele. Já sabemos mais ou menos o que ele tem pra trazer, de bom e de ruim. Então continuarei nele, nos seus encontros, nas suas porradas e nas suas surpresas. Ficarei aqui vivendo. Um pouco mais sábio, um pouco mais em mim, um pouco mais pesado, mas se tudo der certo um pouco mais feliz. 
Mas no momento ainda dói. No momento ainda sinto sua falta. 

quarta-feira, 27 de março de 2019

Meninos de rua...em 2076

No terceiro andar daquele prédio de beco dormia uma criança. Embalada pelo soar doce da flauta transversa que sempre ecoava por aquele beco. Na janela do quarto, refletida na parede de tijolos que tão apertadamente subia logo em frente a sua janela, uma luz verde que iluminava sutilmente o quarto. Indo e vindo, como o trepidar de uma vela, a lua seguia os tons doces da melodia. Os país da criança nunca reclamavam do barulho. Por mais que conservadores naquela sociedade que marginalizava os menos afortunados, eles continham seus preconceitos mantendo o convívio com seus vizinhos sem casa de forma até cordial. O que era incomum naquela vizinhança. Naquela família a musica era a unica coisa que embalava a criança, já que suas vidas duras não permitiam muito tempo para tal afeto e cuidado.
No canto do beco escuro, na rua já não mais tão fria após tudo o que mudou o clima daquele país, e do mundo, moravam dois indivíduos.
- Boa noite Morrice. – Disse Max se sentando aos pés do seu não mais tão novo companheiro de beco.
Haviam anos que eles já não se separavam. A anos viram que a sobrevivência dos dois estava mais garantida conjunto. Quando se conheceram, entretanto, passaram por vários conflitos até entender isso.
- Bom dia Max. – Respondeu de forma serena e quase sorridente Morrice, somente após terminar sua melodia. – Vendeu alguma coisa hoje?
- O suficiente para uma barra de alimento. – Respondeu Max enquanto montava a base para seu modulador de arquitetura tri-dimensional no chão ao lado de seu companheiro. – Nem mesmo aquelas lesmas que se dizem designs dessa cidade tem créditos para comprar trabalhos ultimamente. – Terminou a sentença ajeitando uma caixa velha perto dos pés de Morrice para depois usa-la de banco.
- Quem sabe assim eles começam a trabalhar por eles mesmos.
- Espero que não. – Respondeu Max colocando o visor que lhe permitia interagir com a interface do seu modulador. – Espero que eles nunca consigam ser tão bons quanto eu. Dependo disso, lembra?
Após ativada a base, que mais parecia um ninho de peças de sucata postas juntas em um circulo no chão, projetava um holograma. Max com o auxilio de suas luvas e visor, que compartilhavam da mesma aparência rustica, moldava o holograma com a maestria que somente pessoas simples que dependem da sua arte conseguem conquistar. A luz verde de seu holograma iluminava ainda mais a rua, mas não conflitava com a luz que tão vivamente saia da flauta de Morrice quando o mesmo a tocava.
- Você tem que parar de comer essas barras de alimento. – Comentou Morrice ao constatar que seu companheiro de beco estava cada vez mais magro.
- É a unica coisa que da para comprar para comer atualmente Morrice. Não é como se eu tivesse escolha. Fora que o objetivo delas é ser uma ração humana. Alimentar os que não tem nada.
- Não, meu caro projetista, o objetivo delas é ser uma solução sem culpa para um problema da sociedade.
- A fome? – Falou comendo um pedaço da insossa barra de aparência marrom e inorgânica.
- Não, a pobreza. Essa barra é só mais um dos muitos extermínios chamados de medidas provisórias. Enquanto nós nos contentamos com elas e nos esvaímos pouco a pouco os que a criaram continuam sem precisar dividir a comida que tem.
- Você e suas conspirações. – Tirou sarro Max enquanto escondia o resto mordido de sua barra em baixo da caixa que estava sentado.
- Você e sua não mais tão cativante ingenuidade. – Completou Morrice levantando com a flauta um chapéu velho que despretensiosamente  descansava no chão atrás dos seus pés, revelando uma maçã meio mordida.
- WOW onde você arranjou isso? – Perguntou Max quase saltando de sua caixa.
- Digamos que caiu do céu.
- Posso?
- Claro CyberMaximiliano3890, guardei para você.
Max pulou de sua caixa em se apoiando somente em seus joelhos e mãos agarrou a maçã. Dando impressão que a maçã, por sua vez, poderia correr do seu alcance. No êxtase de comer algo tão saboroso Max deitou-se de costas no chão da rua e de boca cheia admirou as paredes do beco se fechando em direção a escuridão do céu.
- Mesmo assim não me chame pelo meu nome de nascença – Reclamou de boca cheia. Enquanto ainda olhava o infinito a cima.
- Perdão garoto. – Morrice respondeu carinhosamente com um sorriso nunca conseguia esconder ao ter feito bem a outra pessoa.
-Esta perdoado professor. – Respondeu Max engolindo o ultimo pedaço do cabo da maçã.
Max não entendia por que Morrice gostava tanto de ser chamado de professor. Para Max essa palavra se quer tinha significado, uma vez que Max aprendeu tudo até aquele momento sem nenhum tipo de ensino programático ou instituição que precisasse de tal titulo. Mas, mesmo assim, usava dele sempre que queria agradar seu companheiro de beco.
- Morrice, pode tocar uma musica para mim? Enquanto termino minha projeção. – Falou levantando do chão e se sentando mais uma vez em sua caixa.
- Claro garoto. Alguma em especial?
- Toca aquela das borboletas! – Falou sem conseguir conter a animação em sua voz.
- Nunca mais consegui alcançar aquela escala de novo. É muito difícil com esse compressor. Já passou da idade dele.
- Então pode ser qualquer uma. Adoro todos os animais que essa coisa trás à vida. Nunca vi nenhum ao vivo mesmo...
Morrice olhou profundamente nos olhos de seu companheiro por alguns segundos, por mais que o visor não o permitisse vê-los com clareza. Ele vez ou outra esquecia que depois de tudo o que aconteceu no mundo, meninos como o Max haviam nascido e crescido sem o vislumbre de nenhuma natureza, sem a vista das estrelas sequer. 
- Farei o possível para que você veja todos eles então. – Disse prometendo severamente para si mesmo enquanto falava. – Amanhã sairei a procura de peças para o compressor. Vamos ver se essa velharia ainda tem potencial para brilhar. – Disse chutando sem muito carinho o compressor que descansava atrás de seu calcanhar, ligando ele com o tranco.
O zumbido sutil do compressor logo foi escondido quando Morrice soprou a primeira nota em sua flauta. O gás comprimido que vinha da mangueira do compressor até a ponta de flauta, ao ser tocado pelas vibrações do som começou a reluzir em imagens que, majestosamente, tomaram forma no ar a medida que a melodia se desdobrava. Dos orifícios da flauta imagens feitas de uma luz tranquila e esverdeada tomaram forma e dançaram no ar. Macacos, pássaros, peixes... Todas as forma que Morrice e suas habilidosas notas conseguiam formar subiam no escuro daquele beco e reluziam para as janelas do prédio. Cada sopro leve uma nota, cada nota uma luz e um movimento. Ao seu lado seu companheiro voltava a trabalhar, sem se desligar da calma e da vibração da melodia.
No terceiro andar do prédio a criança dormia embalada com a melodia e a luz que refletia no muro logo em frente a sua janela. Sonhando com belezas que nunca veria e pensando em que comida jogaria da sua janela no dia seguinte.

Créditos inteiros para Daniel Araújo (@leleskine) pela arte, inspiração e ambientação. Foi mal roubar a ilustração e sair escrevendo mas não resisti ao que ela fez eu sentir.