sábado, 23 de março de 2013
Trecho #4 ( Começando a desenvolver os personagens. )
- O ser humano é simplesmente incapaz de ouvir o silencio. Simplesmente incapaz. - Ele falava isso expressando uma decepção profunda enquanto se servia de mais um copo de vinho. Ao menos ela ainda falava para si de que era vinho. - Nosso corpo biologicamente não foi feito para conceber o silencio total. Ainda quando não ha ruido algum em volta, os nossos tímpanos ainda se mantem vibrando pelo costume ou algo do gênero. Ficamos anos atrais de paz e silencio e quando encontramos não passa de um ruido em fá sustenido extremamente agudo e enlouquecedor. PIIII - Ele interrompeu para beber mais um gole. - PIII. E mesmo que você consiga, e não consegue, mas ainda que consiga se manter no silencio absoluto até o corpo acostumar e o zumbido acabar, a unica grande revelação que terá é a de que você consegue ouvir seu coração bater. Por mais que ache que não. Estou falando serio! Não existe duvidas. Você vai se ver um paspalho que esperou duas semanas em uma masmorra com tampões de ouvidos, ou sei lá, e o grande "silencio" que vai ouvir vai ser: Tum Dum... Tum Dum... do seu coração batendo e carregando o sangue pelo seu corpo até seu cérebro. Por mais que você não o use. - Ele virou o copo. Ela já não estava mais ouvindo com atenção. Se perguntava se o vinho de coloração tão arterial realmente o estava embebedando ou se era só o jeito dele de atrair sua atenção gesticulando como um bêbado, ou um ator.
- Mas, seu coração bate? - Ela perguntou inocentemente assim que ele tirou um tempo para tomar mais um cole após re-encher o copo .
Um silencio profundo cobriu a sala. Por alguns segundos só se podia ouvir a madeira da casa rangendo com o frio que fazia lá fora e o tic e tac do relógio cuco na parede. Por um breve momento ela temeu por sua vida e ao mesmo tempo se pegou presenciando todos os efeitos do silencio que ele havia descrito.
- Não é essa a questão. - Ele respondeu após um tempo de forma bêbada e bem humorada quebrando o clima tenso que havia ficado na sala. - O importante é reparar o como nossa própria biologia nos impede de aproveitar as sutilezas do universo. - Ele falava isso coberto de um orgulho indescritível. Como se o que falasse fosse puro ouro e dando a impressão de que ele já havia repetido esse discurso muitas e muitas vezes. - A gente só vê uma fração do mundo, só sente o que toca nossa pele... É limitado, é... - Deu uma pausa reparando que ela não havia tocado em sua bebida. - Estou falando de mais? Estou te deixando desconfortável?
O coração dela bateu forte ao ver que as feições de seu anfitrião, que a pouco falava como um artista em um monologo, agora estavam sérias. Seus olhos fixos olhando para cada centímetro do corpo dela, de cima a baixo. Como se ela fosse ao mesmo tempo uma deusa e uma presa. Seu corpo que estava encostado confortavelmente na cadeira agora estava arqueado em sua direção, o que dava a impressão por mais que eles estivessem separados pela mesa de centro, de que ele estava a um palmo dela. Por um segundo ela não sabia se ficava amedrontada ou lisonjeada.
Para quebrar o clima e acalmar seus próprios medos ela pegou o copo da mesa de centro, que havia sido servido a ela no começo da noite, e bebeu o liquido vermelho forte com cautela. Para sua surpresa o gosto era de vinho.
Barulhos vieram do andar de cima. Nada de preocupante mas nada ignorável. Ele se levantou pedindo licença de forma bastante cordial e andou até as escadas gigantes que haviam no meio da sala.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Um copo meio cheio
Todos se entorpecem. Seja na procura da endorfina que cobre nosso sangue quando comemos chocolate, seja no prazer desnorteante do álcool ou até na paz e na tranquilidade de um chá de camomila. Nós passamos a vida de remédio em remédio, de vicio em vicio. Procurando saciar esse vazio que existe na condição humana. Passamos tanto tempo tentando preenchê-lo com qualquer coisa que podemos que muitas vezes se quer tentamos respirar e simplesmente se acostumar com ele.
Nós nos entorpecemos,dançamos, cantamos e nos drogamos. Procuramos no céu as respostas para perguntas que nem sabemos formular. Competimos em esportes, matamos em caçadas e em guerras, lutamos entre nós somente para focar os olhos para fora do vazio monótono e perturbador que existe e sempre existirá em nossos peitos.
Nós malhamos, nos maquiamos e nos depilamos. Colocando como meta uma perfeição física inexistente somente para que faça sentido o nosso sentimento de imperfeição. O sentimento de que no fundo estamos todos incompletos.
Nós nos machucamos, jogando nos outros nossas frustrações e tristezas.
Nós nos matamos.
E inexplicavelmente cientes disso tudo nós nos culpamos. Traçamos padrões de comportamento para julgar aqueles que saem dele. Escrevemos falsos livros aonde falsas divindades nos dizem o que devemos ou não fazer, somente para fugir da triste e agoniante verdade de que nós, simplesmente, não sabemos.
E perdidos em guerras, culpas, objetivos e obsessões não vemos que isso tudo nos define e que talvez essa seja a grande beleza de nossa imperfeição.
Nós nos amamos mais e mais, somente para achar nos outros algo para preencher em nós.
Porque algo em nossa natureza nos criou sem um pedaço e para preenchê-lo nós mudamos, mimamos e criamos.
Nós demos luz a musicas, filmes e artes magnificas. Tecemos poemas e fomos a lua.
Somos e sempre seremos bêbados, drogados, brigões, insatisfeitos, reativos, ansiosos, aflitos, inseguros, carentes e perdidos. Cabe a cada um de nós pegar esse nosso defeitos de fabrica, essa nossa fome por mudança e fazer com ela o que tantos antes fizeram. Transformar em amor, em arte, em dança, em conhecimento, em felicidade.... Sem culpa, sem ódio e sem desespero.
Sem negar a única grande verdade e grande resposta que nossa existência vai nos entregar: “Somos somente humanos”.
E como tais, estaremos sempre incompletos.
Só não necessariamente infelizes.
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