domingo, 14 de outubro de 2018

Não é facil namorar uma mulher (de verdade)



Começo esse texto com um titulo de duplo sentido. Não me leve a mal, o único sentido que eu não quero usar o titulo é no sentido que acho que as pessoas vão entender. Esse não é um texto que tenta passar uma linha entre mulheres “de verdade” e mulheres que de alguma forma não se enquadram na categoria. Não. Toda a mulher é mulher de verdade. E essa é parte da problemática.
Importante ressaltar também que escrevo esse texto pensando no publico masculino. Escrevo para trazer minhas experiencias e dificuldades para, quem sabe, dialogar com quem se sinta da mesma forma. Para falar um pouco como um homem criado na nossa sociedade sobre as dificuldades de sair da zona de conforto e privilegio que nascemos e somos criados em direção a um lugar de igualdade. Igualdade de maturidade e conhecimento de si. Coisa que não só eu mas todos os homens que encontrei passam dificuldades quando tentam alcançar.

Sou não monogâmico e bissexual, mas não vou abordar essa segunda parte aqui (Será um texto super heteronormativo para poder abordar o problema). O mais importante é que sou HOMEM não monogâmico. Aqui já existe um ponto. Como homem é muito fácil para mim encontrar alguém com interesse em mim. Na verdade é muito fácil encontrar mulheres SENSACIONAIS que tem interesse em mim. Porque sou fodão, gostoso pra caralho? Não, longe disso. Simplesmente porque sou homem e com isso já vem um valor dado por essa sociedade machista. A quantidade de mulher foda que se diminui para conseguir um homem médio (como eu) a minha volta me assusta. E digo isso não para culpar de alguma forma essas mulheres. Pelo contrario, digo para ilustrar essa imagem que se forma em cada uma das relações a minha volta, inclusive as minhas.

Para fins de semântica vou definir um pouco mulheres fodas e homens médios (pela minha visão) e vou deixar vocês buscarem os exemplos na vida de vocês.

Mulheres fodas: elas entendem de si, lutam dia a dia contra uma estrutura que desempodera elas e ao mesmo tempo a culpa de tudo o que elas não são (ou não querem ser). Elas constroem uma alto estima com muito suor em um ambiente que exige delas uma perfeição desumana. Cansam a garganta tentando ter um espaço de fala que lhes é roubado. Aprendem toda a sorte de artimanhas para se impor numa sociedade que coloca elas como coadjuvantes. E no meio dessa opressão batalham para alcançar o que é possível satisfação emocional e sexual. Tudo para ter um pouco de felicidade subjetiva em um ambiente 100% hostil a isso. Tidas como loucas, tristes, más, egoístas, quando na verdade só querem ter espaço para ser....bom.. elas.
(resumo: todas as mulheres que conheço)

Homens Médios: Tem mente aberta para entender os privilégios que o sustentam. Ouvem com paciência suas companheiras e se preocupam com a felicidade das mesmas. Quando deparados com posturas machistas ou criticas sobre seu comportamento tendem a ouvir e pedir desculpas. Se preocupam com sua aparência e com como despertar o desejo de outros por eles. Cuidam de alguma forma das suas relações. E tem interesse em ter uma relação saudável com o minimo de igualdade e felicidade para os envolvidos, acima do status cuo da relação em si. Mesmo assim ainda tendem a ser inseguros e egoicos e a precisar de resposta positiva para cada ação minimamente decente e madura, simplesmente porque faze-las é abrir mão do privilegio que vem tão fácil.
(resumo: alguns homens, bem raros. Mesmo assim são “médios” porque  vamos combinar que não é pedido deles nada além de ser uma pessoa boa)

Essa definição é o ponto principal do problema. Ao me relacionar com essas mulheres fica claro o nível de desigualdade que existe. Não com relação a opressão das mulheres. Isso é claro o tempo todo e não precisa de um esquerdomacho para sublinhar. Mas sim a diferença palpável de maturidade entre um componente e outro da relação.

Enquanto nós temos dificuldade de lidar com o minimo negação e rejeição, enquanto nós precisamos de um processo de desconstrução para simplesmente entender nossas falhas. Cá estão elas comendo o pão que o diabo amassou, sorrindo e perdendo o tempo delas para ensinar o que nós já deveríamos saber. Tudo isso pura e tão somente porque querem ser felizes com a gente. Vamos combinar que se existisse uma parcela da população masculina que fosse tão entendida de si e dos outros, quanto elas são, elas NÃO ESTARIAM COM A GENTE. E eu não as culpo.

E meio que é ai que me pego hoje.

Meu valor não é meu. Mas como um homem médio eu me preocupo com isso. Quero ser um parceiro de verdade para quem está comigo. Quero ser capaz de ter uma conversa e entender minha parceira e talvez ter uma posição que ajude ela (e não só uma reação minha ao problema dela e como EU acho que ela deveria resolver). Quero poder transar com uma mulher e descobrir nossos prazeres juntos, sem a imposição de ego ou inseguranças. Quero poder ter meus pés no chão, como elas tem, a ponto de não só ser peso na minha relação mas ser apoio também. Claro que não sou tão ruim assim, sou médio. Ajudo onde consigo, sou o que consigo e tenho meu pequeno valor (tirando todo aquele valor que me é dado). Mas me vejo a todo o momento precisando aprender a ser melhor para que minha parceira possa ser mais ela sem medo deu “não dar conta”.

Não é fácil namorar uma mulher, de verdade.
Não é fácil namorar de verdade uma mulher.

Quero ter uma relação saudável de igual para igual com quem quer se seja. E depois de muitas discussões com varias mulheres que se disponibilizaram e me ensinar o lógico ainda me sinto galgando um caminho árduo sozinho. Não existem livros sobre homens fodas nesse sentido. Porque o sentido de homem foda está tomado por uma outra imagem. Uma imagem que não me contempla, que não deveria contemplar ninguém. Com valores de força ao invés de flexibilidade, de logica ao invés de sentimento e assim por diante. Enquanto mulheres tem series sobre sororidade e a dificuldade de lidar no cotidiano com tudo o que elas passam (que nós qualificamos como séries bobas por incapacidade de entender a profundidade dessas coisas), nós aplaudimos imagens egoicas de homens emocionalmente alajados mas HIPER capazes e egoicos: como Homem de Ferro, House, Sherlock Homes, e a lista segue. No final me sinto sem outros homens para falar sobre isso. Para entender o que podemos fazer melhor e ajudar outros de nós a seguir esse caminho.

Por isso quis escrever esse texto. Não para ensinar nada mas para levantar uma bola esperando que outros homens leiam, se identifiquem e conversem. Para tentarmos todos sermos bons homens médios até que, quem sabe um dia, algum de nós consiga ser um homem bom.

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