domingo, 24 de janeiro de 2016

Dentro da casca


- Da para se sentir sozinho dentro da própria casca. – Ela falava enquanto tragava mais uma vez o baseado que segurava. – Den..tro... de si... mesma – Completava a frase com a voz apertada, falando mas não deixando a fumaça sair.

Do galho de cima da arvore de caqui ela passava o baseado para sua prima que sentava no chão.
- Por isso que dói? Mesmo tendo você, a mamãe e o papai? Porque a gente ta sozinha, mas não ta né... – Parou para tragar o baseado enquanto olhava para o fim de tarde meio ensolarado meio nublado.

Antes que pudesse voltar a falar sua prima a interrompeu:

-  Sim! Dói porque a gente ta sozinha dentro da gente e não tem como colocar ninguém lá para fazer passar. Não com facilidade. Por isso que falam que dói no coração.

- Em mim dói na barriga. – Falou soltando a fumaça e passando de volta para cima.

- Em mim dói no pulmão. – Outra tragada.

O silencio tomou a arvore naquele fim de tarde por alguns minutos. A maconha faz as palavras escassas, mas muito mais significativas, elas sentiam. "Não existe a necessidade de falar tanto quando se pensa mais no que fala. Ou em qualquer coisa."

- Quando é que passa? – A prima mais nova indagou, sentada no chão e olhando para cima, para sua prima como quem olha para um ídolo.

- Nunca. “Quer dizer”: essa dor passa, mas calma que vão vir outras.

- Ai! Não quero mais me apaixonar por ninguém!

- Eu nunca mais vou fumar maconha!

- AHAM! Você? Sei!

- A mentira é a mesma. A gente pode dizer para a gente o quanto a gente quiser de que não vamos mais gostar de ninguém. Mas no fundo a gente vai!

- Ta dizendo que você é apaixonada pela maconha?

- Não... – A prima mais velha respondeu sem convicção com um certo toque de humor.

- Haha! Sei! – Estendeu a mão pedindo o baseado, que agora já estava quase no fim. – Entre nunca mais se apaixonar e nunca mais fumar maconha?

- Nunca mais me apaixonar!

- Serio?

- Lógico! Se apaixonar sem maconha agora já ta impossível! Imagina sentir o que você ta sentindo sem nada para relaxar! Deus me livre! – Respondeu começando uma risada que talvez não saísse tão bem, se não fosse o THC.

- Hahahaha! É, para mim com a maconha já ta foda! Imagina sem!

- Mas a gente ainda tem a cerveja. A cerveja e outras pessoas.

- Não to com cabeça para mais garoto nenhum! – Falou olhando para o rosto da prima, que a olhava fixamente com desconfiança. E imediatamente depois se corrigiu envergonhada. – Nem garota!

- Hahaha. Você não tem noção do que ta perdendo! Com mulher é muito melhor. Homem é muito cheio de merda. Só é bom mesmo de vez em quando.

- Ai prima, não sei como você consegue. – Falou tentando não passar a cara de nojo.

- Mas nem começa com essa não – Reagiu sorrindo para aliviar o assunto. – Você ta proibida de ficar arrastando corrente sem ficar com ninguém! Seja com menino ou menina você tem que viver!

- Mas faz a dor passar? – Perguntou a mais nova olhando para o horizonte, que agora já escurecia, fixamente.

- Não muito, mas fazendo alternativa você se diverte menos.

- A alternativa? – Voltou rapidamente sua atenção para o assunto, de forma lenta como quem acaba de acordar de um sonho. Que se passou nos 10 segundos que olhava o céu.

- É o pancadinha, ficar tentando superar sem conhecer ninguém! Das duas uma né! Ou você continua pegando geral ou para para ficar triste. Em uma delas você continua se divertindo enquanto supera – 
Falou rindo de canto de boca.

- Não to com cabeça para isso não.

O silencio tomou a arvore de novo. Os mosquitos agora começavam a incomodar. Era hora de sair daquele estado que se encontravam. Todas as duas pensavam em todas as vezes que conversavam quantas mais dessas elas teriam. Era algo tão especial para elas que batia um frio na barriga somente imaginar uma vida onde essas conversas não tivessem mais no cotidiano. Mas mesmo assim, como quem catuca uma ferida ou procura dor em um torcicolo, elas continuavam a pensar isso. Todas as vezes que se encontravam. Sem falar nada uma para a outra.

- A gente tem que ir. – Falou a prima mais velha descendo da arvore.

- É... - Respondeu desanimada a mais nova. – Já to ficando com fome.

- UHUM! “Fome” – Riu enquanto limpava a calça jeans com as mãos após descer da arvore. – Fome de mato!

- Rs... – Riu fraco, sem embarcar na piada.

- Calma que passa.

- Passa mesmo?

- Passa. Demora mas passa.  – Abraçou a prima menor com força, como uma mãe. - Amanhã a gente sai, você ta aqui a semana inteira. Vai ver a gente até encontra um menino para você. Ou uma menina 

-  Completou rindo.

-  É... – Respondeu sem discutir com um sorriso. – Eu sou boba por me sentir sozinha né. Tenho tanta gente na minha vida. Tanto amor.

- É, é boba sim. Mas como eu falei, parece que a gente está sozinha dentro própria casca.

- Tem mais um “beck”? – Perguntou sorrindo a mais nova enquanto tentava andar com as mesmas pernas que a mais velha.

- Tem sim. E tem brigadeiro!


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